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Funerária vende caixões temáticos e vira atração local


Caixões do Vasco e Corinthians. Foto: Douglas Júnior

Além das ruínas, casarões antigos, praias e manifestações culturais como a Festa do Divino Espírito Santo e a de São Benedito, a Funerária Pinheirense virou atração no município de Alcântara. O motivo é que o proprietário, Gerson Costa, conhecido por Zé do Caixão, resolveu vender caixões temáticos. O assunto escolhido são times de futebol. Nos pacotes oferecidos pela loja estão também “choradores” – pessoas contratadas para chorar durante velórios e enterros – e banda para tocar os hinos das seleções esportivas e músicas em geral.
Antes mesmo de entrar na funerária, a frase “seja sócio” desperta o interesse de moradores e turistas. A maioria acha o convite cômico. “Eu mesmo não quero ser sócio não. Deus me livre. Não quero morrer tão cedo e nem nunca trabalhar com nada relacionado à morte”, disse entre risos Luís Silva, que mora próximo ao local.
Na porta da funerária, um vendedor de caixões muito espirituoso que usa óculos escuros, chapéu de palha, camiseta colorida, bermuda e está sempre sorrindo. Gerson Costa, ou Zé do Caixão, como é chamado no município, além de proprietário, é o responsável por receber os compradores e apresentar os pacotes de venda.

Zé do Caixão aguardando compradores. Foto: Douglas Júnior
Além do Zé do Caixão, que por si só é uma atração à parte, entre os caixões amadeirados, envernizados, dourados e prateados, estão os itens que mais chamam a atenção de quem passa pela Rua Direita, Centro dea cidade, onde está situada a funerária. São os caixões com emblemas de times de futebol.
Durante minha passagem pelo lugar, estavam expostos caixões das seleções Vasco e Corinthians. “Tínhamos um do Flamengo também, mas morreu um torcedor e compraram o caixão para ele, mas já fiz pedido de outro”, explicou Zé do Caixão.
Além do Flamengo, Zé do Caixão disse que pretende encomendar de uma fábrica de caixões em São Paulo - de onde também são trazidos os comuns – também nos temas dos times Fluminense, Sport, Internacional e até dos maranhenses Sampaio Corrêa e Moto Club.
Para o falecido obter o caixão personalizado, porém, terá de pagar mais caro. Cada um, independente do time, custa R$1.800. Apesar do valor, ele afirma que já recebeu pedido de reserva. “Quando a pessoa é muito torcedora, a família quer homenagear, mas para garantir isso, antes mesmo de morrer tem gente que vem aqui fazer a reserva. Tem um fanático pelo Vasco que já reservou o seu”, disse.
O torcedor vascaíno é Fábio Luís Lemos. “Sou Vasco desde pequeninho. Nasci torcendo e vou morrer torcendo e, para isso, só mesmo sendo enterrado com um caixão do time do coração. Acho uma idéia maluca, mas muito legal”, explicou de maneira bem-humorada.
A idéia de vender caixões com emblemas de times de futebol surgiu desde o início do ano, apesar da Funerária Pinheirense existir há 15 anos. “Meu pai era o dono e comecei a trabalhar nela desde cedo. A funerária funcionava em Pinheiro, mas depois que ele morreu me mudei para Alcântara”, relatou Zé do Caixão.
Segundo ele desde que adotou a venda dos caixões com temas futebolísticos, as vendas aumentaram, assim como as visitas na funerária. “Muitos turistas vêm aqui e quando passam e olham, tiram foto, se divertem, apesar de ser algo relacionado à morte. Virou uma atração de Alcântara”, considerou.
Não é só apenas os caixões de times que transformam a Funerária Pinheirense em um local peculiar. Nos pacotes de venda, os compradores podem optar também por “choradores”. “Tem gente que não tem muitos amigos e nem muitos familiares, então, tem gente que contrata ‘choradores’. Aqui temos dois, que são o Berfú e a Fátima. Eles recebem R$70,00 para chorar no velório e enterro do defunto”, revelou Zé do Caixão.
Há quem opte também por banda musical, para “animar” a despedida de quem morreu. Se o falecido estiver sendo enterrado num dos caixões de time, por exemplo, é tocado o hino da seleção de futebol escolhida. “Tem gente que pede forró, reggae ou músicas fúnebres. Alguns aproveitam o momento para dançar com a viúva, se ela for bonita”, contou entre risos. 
Bem familiarizado com temas relacionados à morte, Zé do Caixão afirma que pretende seguir com o seu negócio. “Não tenho problema com morte, nem com defunto. Faz parte. Eu, por exemplo, morei três anos aqui na funerária, quando ainda não tinha condições de ter outro lugar para ficar. Vou continuar me sustentando com a venda de caixões”, assegurou.

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Thamirys D'Eça

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Lentes leigas em Alcântara

As imagens abaixos foram feitas por mim em viagem à Alcântara no início do mês. Era para eu ter dado uma "tratada" nelas, mas a preguiça não deixou. Câmera fuleragem, mas a intenção é boa, viu!? 
Fui para o local para cobrir os últimos dias da Festa do Divino Espírito Santo como repórter do jornal O Estado do Maranhão. Vejam, então, breves registros da pacata cidadezinha maranhense, da manifestação folclórica mais popular do lugar e de baboseiras pessoais.
Mastro do Imperador

Saindo de São Luís a "ferry" e fogo

Ruína na Praça da Matriz


Ruína na Praça da Matriz; Cruz ao fundo

Detalhe de ruína na Praça da Matriz

A "passagem" humana pelas ruínas

Mastro do Imperador na Praça da Matriz

Ruína na Praça da Matriz
Anúncio da Festa do Divino

A provinciana Alcântara

São Luís vista de ruela em Alcântara
 
Catita, a cadela que acompanha chegada de turistas, tomando uma gelada
Cortejo no Domingo de Pentecostes

Cortejo segue para a Igreja Nossa Senhora do Carmo

Cruz no alto da Igreja de Nossa Senhora do Carmo

Membro da corte imperial
Membro da corte imperial

Cruz sinaliza início da procissão

Bonecas à venda no largo da Igreja de Nossa Senhora da Conceição

Luminária no largo da Igreja de Nossa Senhora do Carmo
Fitas da Festa do Divino

Além mar

A malemolência nas ruínas alcantarenses
TV nada. Acho que sombra é que engorda
Senhor no largo da Igreja Nossa Senhora do Carmo
Perna, bolsa, fitas e Heineken
Minha pulseira "temática"
Bandeireiras em cortejo
Caixa; caixeira
Bandeiras do Divino
 
Pés cansados das velhas caixeiras

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Thamirys D'Eça

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Cadela acompanha chegada de turistas nas ruas de Alcântara

Catita nas ruelas de Alcântara. Foto: Douglas Júnior

Thamirys D´Eça
Enviada Especial

No início da manhã, ela está a postos no Porto do Jacaré, em Alcântara, à espera dos visitantes. Fica à beira-mar e alegra-se ao observar no horizonte a chegada dos barcos. Ao visualizar as figuras estranhas ao seu cotidiano desembarcando em sua cidade, a cadela Catita se aproxima e escolhe um grupo para acompanhar pelas ruelas de pedra. Quem está chegando acha a atitude normal, mas quem é morador do local sabe que foi dado início a mais um “ritual”.
A cadela é muito querida em Alcântara. Alguns a chamam de Catita, mas a maioria a conhece como “a cachorra que acompanha os turistas”. Com aproximadamente 5 anos, conforme se estima no município, Catita mora na rua e para sobreviver depende dos petiscos que ganha.
Por ser muito dócil, é fácil se cativar com seu olhar sereno e dar o resto do bife - sua comida preferida - para vê-la abanar o rabinho.
Segundo Maria do Socorro Macedo, a Batissá, que mora, tem um restaurante e uma pousada na Ladeira do Jacaré - via que dá acesso ao porto -, Catita herdou da mãe, Sâmia, o hábito de acompanhar os turistas na chegada à Alcântara.
“A mãe dela já morreu, mas a filha continuou fazendo o que ela fazia. Quando Sâmia ainda era viva, iam as duas e ela aprendeu”, contou a empresária.
Batissá disse, ainda, que Catita e a mãe pertenciam a uma idosa conhecida por Gregrória, mas após Sâmia falecer, há pouco mais de três anos, a família mudou-se, deixando Catita desamparada. “Quem cria ela somos todos nós. Não deixamos ficar doente. Damos comida. Quem mora por aqui sempre ajuda. Ela é uma cadelinha especial”, afirmou Batissá.
A moradora disse que a esperteza de Catita não é evidente apenas por acompanhar os visitantes. Quando ela fica saciada com os vários quitutes que ganhou durante o dia, os expele para poder comer mais.
“Como Catita acompanha mais de um grupo de turistas e nós ainda damos comida a ela, para não desperdiçar, vomita, que é para poder ter espaço na barriga para comer mais”, explicou Batissá.
Companhia - Outro morador, Adilson Viégas Costa, o Cabeludo, dono de um bar na Praça da Matriz, recebe constantemente a visita de Catita. “Ela sai acompanhando os turistas até onde se hospedarão. Se vão passear, ela vai atrás, mas muitas vezes eles vêm para cá para o bar beber, e ela fica deitadinha esperando eles terminarem, para seguir o mesmo rumo. Quando não tem mais turista chegando ao porto, ela fica rodando a cidade e fica perto de quem não é daqui”, relatou.
A artesã Doralice Santos (Dona Dora), que considera Catita mascote da cidade, disse que para todos os turistas que visitam sua loja, na Ladeira do Jacaré, conta sobre a história da cadela. “As pessoas acham engraçado, gostam. A maioria quando sabe faz carinhos e dá comida e ela”, disse.
Catita acompanha equipe de O Estado. Foto: Douglas Júnior
Nem mesmo a equipe de O Estado escapou aos olhos da cadelinha, que a acompanhou do Porto do Jacaré até a Praça da Matriz. Aos outros visitantes o hábito de Catita também despertou curiosidade.
“Achei muito interessante ela fazer isso. É uma cachorra muito esperta. Percebi que ela estava nos seguindo, mas só depois soube que ela faz isso com quem é de fora da cidade”, observou Fernanda Corrêa, que saiu de São Luís com o namorado para conhecer Alcântara e teve a companhia de Catita durante todo o período do almoço.
Outro que se surpreendeu com a história de Catita foi o turista paraense George Victor de Moraes. Ele foi com esposa e filhos para Alcântara e também recebeu atenção da cadela.
“Minha esposa é daqui e já sabia da história, mas eu e nossas filhas não. Quando elas viram que a cadelinha nos escolheu para seguir elas ficaram muito empolgadas”, destacou o turista.
Matéria publicada na edição do dia 18 de junho de 2011 do jornal O Estado do Maranhão.

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A vida de um divino artista

Foto: Douglas Júnior
Thamirys D´Eça
Enviada Especial

Dos 62 anos de vida na quase pacata cidade de Alcântara, 42 foram dedicados à Festa do Divino Espírito Santo. Mestre-sala e responsável pela elaboração dos altares e centros de mesa, Antônio do Livramento Boaes Tavares, o Antônio de Coló, filho de um dos ícones do festejo, o falecido Seu Coló, despertou interesse às lentes do cineasta pernambucano radicado no Maranhão Murilo Santos. As pesquisas e filmagens feitas por ele resultaram no documentário “Divino Artista”, que teve a sua pré-estreia sábado, na cidade natal do protagonista.
O cineasta acompanha o trabalho de Antônio de Coló desde 1973, quando visitou e teve contato pela primeira vez com a Festa do Divino de Alcântara, mas só em 1977 resolveu começar a registrar o trabalho do artista com mais frequência. “Percebi que ele merecia destaque por causa do trabalho. Os altares são um dos maiores símbolos da festa”, ressaltou Murilo Santos.
A elaboração do documentário, porém, só aconteceu em 2008, quando o cineasta foi agraciado com apoio da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma) no valor de R$15 mil. A partir de então, Murilo Santos passou a colher vídeos e fotografias antigas feitos por ele desde a primeira visita à cidade, ainda como membro do Laboratório de Expressões Artísticas (Laborarte). “Quis fazer algo que eu tinha referência anterior. Não faço trabalho como curioso. Primeiro estabeleço proximidade”, disse o cineasta.
A coleta total do material, que incluiu Mini DV, VHS e Full HD, rendeu cerca de 10h de filmagem, cuidadosamente, editadas pelo próprio idealizador desde o início do ano. A proposta inicial era de que o trabalho tivesse 26 minutos, mas por causa do extenso período de gravação e da densa história do protagonista, o tempo de duração passou a ser de 52 minutos.
Trabalho - No filme, Antônio de Coló mostra o processo de elaboração dos altares para o Divino Espírito Santo e dos centros de mesa, desde as primeiras aplicações do material e os trabalhos de mestre-sala, que é o responsável por dar todo tipo de assistência à festa, como de auxiliar a corte nos cortejos. “No documentário, o público poderá entender a Festa do Divino. Será um mergulho na festa do ponto de vista de alguém de dentro, que é o Antônio de Coló”, ressaltou Murilo Santos.
Além do filme, o documentário também traz extras. Em um desses Antônio de Coló, faz um breve resumo de aproximadamente seis minutos do seu trabalho na Festa do Divino nos últimos 10 anos. Em outro, é mostrada uma entrevista com o protagonista e mais um mostrando as etapas de construção de um altar. Em alguns trechos dos extras, Antônio de Coló tece comentários que foram gravados separadamente. “A ideia é que no DVD tenha o filme principal e diversos curtas, que serão utilizados como extras”, detalha o cineasta.
Santos diz que, por causa do teor explicativo do documentário, o trabalho poderá ser utilizado em escolas, cursos e como amostra para turistas que chegam à cidade com pouco conhecimento sobre o assunto. “Muitos já ouviram falar sobre a festa, mas poucos conhecem o significado de cada símbolo. No documentário, isso é explicado”, evidenciou.
Foto: Douglas Júnior
‘Première’ - A intenção é de que o documentário seja lançado em agosto, durante a Semana do Folclore. A pré-estreia, porém, aconteceu sábado, em Alcântara, durante a Festa do Divino Espírito Santo. A exibição foi em baixa resolução, na Igreja Nossa Senhora do Carmo, em um telão improvisado no local. A pesar da pré-estreia, o filme ainda não foi totalmente finalizado, restando ainda algumas passagens a serem incluídas.
A apresentação do filme atraiu a curiosidade dos alcantarenses e também de visitantes. A estudante Cláudia Rodrigues disse que gostou de ver os amigos na telona. “Vi várias pessoas conhecidas, foi muito legal e engraçado. Achei que contar a história da festa é bom para as pessoas entenderem”, defendeu.
Para o protagonista do documentário, Antônio de Coló, foi gratificante ter o trabalho reconhecido e exibido. “Achei ótimo. Gostei demais e me senti muito importante. Assisti com familiares e amigos na igreja também pela primeira vez. Fiquei emocionado com tudo”, descreveu, com certa timidez.
Ele disse também que os altares merecem destaque na festa, pois o processo de elaboração é árduo, assim como o de mestre-sala. Para o festejo deste ano, por exemplo, ele fez o altar de dois membros da Corte Imperial, mas houve anos em que ele fez até cinco. “Quando fica pronto, agradeço a Deus por mais uma vitória, por ter vencido todas as dificuldades”, enfatizou Antônio de Coló.
Orgulhoso, ele conta ainda que tem um filho, Weslley Rogério Silva de Sousa, de 18 anos, que exerce o mesmo trabalho e que também participou do “Divino Artista”. “Aprendi a fazer os altares desfazendo-os, quando acabava a festa. Ficava também observando quando o faziam e aprendi. O mesmo está acontecendo com meu filho”, acrescentou de Coló.
Foto: Douglas Júnior

Caixeira do Divino vai ter a vida documentada
A partir do documentário “Divino Artista”, Murilo Santos decidiu aprofundar-se ainda mais nos elementos da Festa do Divino Espírito Santo de Alcântara. Seu foco agora é exibir o trabalho da caixeira Marlene Silva, a Dona Malá, de 68 anos, uma das poucas e mais velhas do festejo do município.
Mesmo sem previsão para o término do registro, o cineasta passou os dias do festejo, que aconteceu de 1º até ontem, em processo intenso de gravação. Nas filmagens, ele utilizou uma câmera Canon 5D em um suporte construído por ele mesmo com restos de materiais de ferro - como de bicicleta - para manuseio do equipamento, que é próprio para fotografia e não para vídeos. Por isso, a câmera não tem sistema de gravação de áudio de boa qualidade. Para superar a barreira, ele acoplou ainda uma base para microfone para captar melhor o som do toque da caixeira.
Segundo Murilo Santos, o trabalho deveria ter sido finalizado ainda o ano passado e o nome também fará referência à caixeira com o termo “Divino”, assim como “Divino Artista”. “A Dona Malá é uma grande conhecedora da Festa do Divino e as caixeiras têm destaque especial no festejo e, por isso, merece o registro”, explicou.
Para a caixeira, o trabalho será bem-vindo, pois vai auxiliar na divulgação da festa e incentivar as pessoas a aprender a arte de tocar caixa. "Tem poucas caixeiras, as pessoas não querem aprender e tenho medo disso acabar", lamentou.
Matéria publicada na edição do dia 14 de junho de 2011 na jornal O Estado do Maranhão.

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Cortejo e procissão encerram Festa do Divino em Alcântara

Foto: Douglas Júnior
Após missas, ladainhas e cortejos ao som das caixeiras que ecoam louvores entre as vielas de Alcântara, imperador, imperatriz, mordomo, mordoma, vassalos, aias, bandeireiras, mestres-salas, turistas e a população local se despedem hoje de mais um ano da Festa do Divino Espírito Santo. Ontem, no Domingo de Pentecostes - 50 dias após a Páscoa -, um dos pontos altos dos dias de celebração, aconteceu a Missa Solene na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, seguida de cortejo, a Procissão da Santa Crôa e Leitura do Pelouro. Milhares de pessoas prestigiaram a ocasião. Hoje acontece a entrega dos postos aos "festeiros" - membros da corte - do próximo ano.
Logo no início da manhã, pequenos cortejos saíram da casa de cada um dos sete "festeiros" em direção à Casa do Divino, na Rua Grande, onde o imperador José Maria Pinheiro reside durante os dias de festa. Após a chegada de todas as pequenas comitivas formadas por banda, membros da corte e algumas com caixeiras, seguiu-se para a Igreja de Nossa Senhora do Carmo.
O templo lotado recebeu a corte e mostrou respeito. Na chegada, as caixeiras fizeram saudação aos presentes com toque de louvação. Em seguida, a missa prosseguiu, com intervalos de cânticos. O momento foi de muita devoção. "É muito bonito quando une a igreja com festa", considerou Renata Sanches, de 32 anos, que saiu São Luís para prestigiar o festejo em Alcântara.
Após a missa, corte, fiéis, admiradores e curiosos da cultura popular seguiram em cortejo pelas ruas de Alcântara. O percurso foi traçado para visitar a casa de todos os "festeiros" ao som de banda ou ao toque das caixeiras do Divino. Na casa dos membros da corte e acompanhantes, tinham um rápido descanso e se serviam de bebida e comida, para que pudessem prosseguir.
Durante o cortejo pelas ruas de Alcântara, várias pessoas apreciaram da porta de casa a passagem da corte imperial, representada por crianças em trajes típicos da nobreza em meados do século XIX. "Acho muito bonitas as roupas, a música. Nossa cultura é isso", disse Maria de José Santos, de 42 anos, que, junto com os familiares, assistiu à visita da corte às ruas do município.
Imperador - Após a visita à casa de todos os "festeiros", entre mordomos e mordomas, a visita encerrou-se na Casa do Divino, quando o imperador recebeu os convidados em um grande banquete, em que um dos destaques era o doce de espécie, que é à base de coco e característico da região. A iguaria é feita por mulheres alcantarenses durante o ano todo.
O Domingo de Pentecostes foi marcado ainda pela Procissão da Santa Crôa, onde a corte completa o rito acompanhada das tradicionais caixeiras do Divino, do pároco e de outros membros da Igreja Nossa Senhora do Carmo andando pelas ruas de pedra, característica do município. A figura central é a Coroa do Divino, chamada de Santa Crôa, uma coroa de prata de valor religioso e histórico.
Depois da procissão, foi feita a Leitura do Pelouro, ocasião em que foi divulgada a relação dos "festeiros" do ano seguinte. A ocasião desperta sempre muita curiosidade da população e o espaço na igreja da cidade fica muito disputado.
Segundo Marlene Silva, a Dona Malá, de 68 anos, uma das maiores conhecedoras da tradição alcantarense e também caixeira do Divino, a cada ano é alternado o posto de imperador e mordomo-régio para imperatriz e mordoma-régia. Como a festa girou em torno do masculino, no próximo ano será feminino. A seleção dos nomes é feita de maneira criteriosa e quem pertence a ela ganha respeito dentro da cidade.
Apesar da Leitura do Pelouro, quando a população cria expectativa para o ano seguinte, muita gente lamenta o término dos dias de festejo, como o caso de Lienio Pinheiro, de 70 anos, um dos ícones da Festa do Divino. "Participo do começo ao fim da festa. Quando ela acaba, fico muito triste", declarou, emocionado.
Para dar prosseguimento à tradição e iniciar um novo ciclo para a Festa do Divino Espírito Santo em Alcântara, acontece na manhã de hoje a entrega oficial dos cargos para os escolhidos para ocupar os postos da corte imperial.

Mais
A Festa do Divino Espírito Santo acontece este ano desde o dia 1º e a ocasião remete à corte de Dom Pedro II, que visitaria a cidade em meados do século XIX, mas a passagem pelo local nunca se concretizou. A festa relembra os costumes da corte imperial e a cidade tem vários traços que mostram a expectativa da população da época para a chegada da nobreza. 
 
Matéria publicada na edição do dia 13 de junho de 2011 no jornal O Estado do Maranhão.

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Após Subida do Boi, partilha da carne é feita na Entrega da Esmola

Imagem apenas ilustrativa
Thamirys D'Eça
Enviada Especial

Depois da Subida do Boi, que marcou a sexta-feira de comemorações da Festa do Divino Espírito Santo, em Alcântara, sábado foi o dia da entrega da carne dos animais que participaram do ritual. Abatidos ainda durante a madrugada, idosos e pessoas carentes receberam dos membros da corte a doa-ção. O gesto de Entrega das Esmolas é de agradecimento ao Divino e a forma de retribuir a ajuda da população para a realização da festa.
Como parte ainda da Subida do Boi, cada animal retorna para a casa do "festeiro" - membro da Corte do Divino - que o cedeu para o ritual. Em seguida, o bicho é levado para o matadouro ou permanece na residência, onde aguarda até a madrugada para ser morto. A espera é para que a carne não continue enrijecida por causa da correria pelas ladeiras, que caracteriza a Subida.
Por volta das 4h de sábado, os bois começaram a ser mortos e ainda no início da manhã a carne que estava no matadouro foi enviada para a residência dos "festeiros". Às 8h, a mobilização nas casas dos membros da corte era grande para repartir as fatias e organizar as cestas básicas, que também fazem parte da Entrega das Esmolas.
O partilha da carne é parte importante do ritual. Vários homens se mobilizam para tirar as partes que não devem ser consumidas e dividir os pedaços. Para isso, a primeira etapa acontece ainda no chão coberto de plástico, madeira ou folhas de bananeira, com ajuda de um machado para serem tirados os ossos. Em seguida é amarrada uma corda no teto para pendurar a carne para ser cortada.
Doação - Cada festeiro é o responsável por escolher previamente quem receberá a doação em sua casa. Na Casa do Divino, onde o imperador mora durante o período da festa, 33 pessoas entre idosos e pessoas carentes foram escolhidas. "Quando vamos, no início, pedir ajuda para o povo para realizarmos a Festa do Divino, percebemos as pessoas que necessitam de ajuda e já fazemos a lista. Quando chega o momento da Entrega das Esmolas, elas recebem. É uma maneira de ajudar", explicou José Maria Pinheiro, o imperador, que distribuiu 293 kg de carne.
Para Luís Augusto Silva, o mordomo-régio, a Entrega das Esmolas é a retribuição pela ajuda do Divino. "Tudo que colhemos, estamos agora devolvendo ao santo", contou. Ele distribuiu 377 kg de carne para 23 pessoas.
Matéria publicada na edição do dia 13 de junho de 2011 no jornal O Estado do Maranhão.

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Subida do Boi agita festa em Alcântara

Foto: Douglas Júnior

Thamirys D'Eça
Enviada Especial

O som do toque das caixeiras é o anúncio do início da Subida do Boi. A tradição, que faz parte da Festa do Divino Espírito Santo, reuniu na tarde de ontem mais de mil pessoas nas ladeiras de Alcântara. O ritual atrai principalmente os jovens, que se divertem correndo dos bois que são atiçados para que persigam os corajosos. A cena é marcada por muita correria, gritaria e cenas hilariantes. No mesmo dia, aconteceu também ladainha na Igreja de Nossa Senhora do Carmo e visita do imperador José Maria Pinheiro aos mordomos.
A Subida é iniciada quando as caixeiras saem da Casa do Divino e seguem em cortejo até o Porto do Jacaré, onde os bois estão concentrados e tendo o rabo e chifres enfeitados de acordo com a cor escolhida pelos membros da corte imperial. No local, se reúnem centenas de pessoas que aguardam com expectativa o início do ritual.
Conforme a tradição, cada membro da corte oferece um boi para a festa. Os “festeiros”, como são designados, aguardam em suas residências a passagem dos animais que é dada início quando é finalizado o cortejo das caixeiras. Enfeitados e amarrados por cordas, os bichos são então encorajados à corrida.
Carreira - Quando a Subida do Boi é finalmente iniciada, foguetes são soltos e centenas de pessoas começam a correria e gritaria para escapar dos animais, que mesmo estando amarrados assustam por causa do seu tamanho e fúria provocada pela algazarra que toma conta do ambiente. Todo o percurso é acompanhado por uma banda, que fica sempre atrás do último boi.
A bagunça generalizada reúne pessoas de várias idades, mas a grande maioria é de jovens. Com apenas 8 anos, o estudante Cláudio Silva disse que é o momento mais divertido da Festa do Divino Espírito Santo e dá dicas para não ser atingido pelos animais durante a correria. “Tem que correr rápido e estar sem chinelo para não tropeçar”, recomendou.
Durante o percurso são vistas cenas hilariantes, como os vários tombos que acontecem durante a fuga. As quedas dos participantes são umas das principais características da Subida do Boi. Quando isso acontece, os outros presentes gritam ainda mais, mas dessa vez gozando de quem caiu.
Quem prefere não encarar a brincadeira, assiste das portas de casa à passagem da multidão alvoroçada, como Antônio Lima, o Totó, de 70 anos, que participou a primeira vez da farra em 1962. “Não gosto mais de participar porque além de ter uma idade avançada, acho judiação com os bois, mas se é tradição, tem que manter”, afirmou.
Após o fim do percurso, cada boi fica na casa do respectivo festeiro que o deu e durante a madrugada ele é morto. A espera é para que o animal esteja mais calmo e, portanto, não fique com a carne enrijecida. Após o sacrifício, a carne é repartida. Hoje, será distribuída na Entrega das Esmolas, outra tradição da Festa do Divino.

Entenda a Corte
A Festa do Divino Espírito Santo em Alcântara tem como presença fundamental a corte imperial, que é um grupo de jovens que durante o período se veste com trajes da nobreza e são tratadas como tal. O império se estrutura de acordo com uma hierarquia no topo da qual estão o imperador e a imperatriz, abaixo do qual ficam o mordomo-régio e a mordoma-régia, que por sua vez estão acima do mordomo-mor e da mordoma-mor. Sempre ao fim da festa – que este ano acontecerá segunda-feira, dia 13 -, o imperador e a imperatriz repassam seus cargos aos mordomos que os ocuparão no ano seguinte, dando prosseguimento à tradição.


Matéria publicada na edição do de 11 de junho de 2011 no jornal O Estado do Maranhão.

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